08 Outubro 2011

DeveDor


Minha palavra eu entreguei ao silêncio
Abandonada num bordel de putas baratas,
Com as pernas arreganhadas feito garranchos.
Falsa virgem violada pela descrença,
Enrabada pelo desejo cru de possuir.

E meu coração eu deixei nas pedras
Frias dos senhores de açougues.
Meu sangue derramei pelas sarjetas.

O que me resta senão dar aos leões minha carne
E deixar meus ossos serem roídos pelos cães?
Até minha alma eu deixarei para o demônio
Se o preço pagar todas as minhas dívidas
Que foram contraídas pela usura alheia.

Nada sacia a fome da descrença,
Em sua boca escancarada e sem dentes,
Cheia de formigas, de gafanhotos.
Tudo o que podia eu dei como crédito.

E tudo foi mastigado, comido, engolido
E ainda assim querem mais e mais,
Enquanto gritam em escárnio:
-Tragam o devedor.

6 comentários:

Marcella disse...

Muito forte e me lembrou um pouco Pessoa ou talvez até Versos Íntimos, o poema...

"E meu coração eu deixei nas pedras
Frias dos senhores de açougues.
Meu sangue derramei pelas sarjetas"

Adoro suas poesias!

Jonas Torres disse...

Me identifiquei com o poema, dolorosamente: "E meu coração eu deixei nas pedras". Muito bom.

Aquele abraço!

Mik disse...

"E tudo foi mastigado, comido, engolido
E ainda assim querem mais e mais..."

'- Sempre querem mais, querem nossa vida por inteiro, nosso coração numa badeja, aberto, devorado pelos querem nos ver até o osso, ver nossos defeitos espalhados como baralhos de um jogo proibido, ver nossas palavras pisarem nos nossos atos recortados, desfeitos em linguagem quase hermética. Querem, sempre querem - mas o que posso fazer se sempre quero dar?'

É triste, mas quem disse que a tristeza não fazia parte também da vida vivida por inteira?

Sopros confusos, de um coração corrompido

Ana Raquel C. Proença disse...

O dificil é não ter como e nem com o quê pagar.

Mabele disse...

Olá!
Tua poesia é forte, e carecemos disso..

Publiquei, depois de algum tempo sem ter tempo pra digitar pacientemente, o texto sobre as flores copo-de-leite : http://euconheciumaguria.blogspot.com/2011/10/sobre-as-flores-copo-de-leite.html

Grande abraço!

Sam Poulain disse...

Nossa, vi muito vermelho por aqui!
Adoro isso!
beijos