11 Setembro 2011

A Menina e os Livros



Distraída, a menina esbarra na estante e derruba alguns livros. O vendedor prontamente se aproxima e recolhe os livros num movimento automático. A menina olha pra cima e vê apenas o olhar acusador do pai que ainda mais prontamente questiona a filha: -Como é que se diz?

A menina parou por alguns instantes, buscando qual frase se encaixaria melhor para a situação, e insegura soltou um ‘’obrigada’’. Olhou mais uma vez para o pai como que buscando aprovação, mas este a corrigiu num olhar insatisfeito:

-Obrigada, não, mocinha. Desculpas.

E num gesto automático a menina virou para o vendedor e mesmo sem compreender o significado daquela palavra, ela repetiu aquilo que o pai lhe havia dito.

Olhou mais uma vez para cima, fitou o vendedor buscando nele um olhar de quem está satisfeito por ver o que uma mocinha bem educada deve fazer. Porém o vendedor com olhos indiferentes imitou algo que por muito pouco não poderia ser chamado de sorriso, e falou: -Tudo bem senhor, acontece nas melhores famílias.

Eu repeti aquela frase baixinho com certo sarcasmo, imaginei-me derrubando os livros das prateleiras e mostrar para a menina que derrubar um livro não é nada além disso: derrubar um livro.

Queria mostrar para aqueles olhos pequeninos que derrubar, cair e levantar são coisas naturais de se acontecer. Queria mostrar que ela não tem culpa alguma. E junto com suas mãozinhas, iríamos um a um pô-los de volta às estantes, pois mais natural ainda é devolver aquilo que caiu para o seu devido lugar.

Mas o mal estava feito. Eu não fiz nada a não ser voltar de meus pensamentos, enquanto vi a menina se esforçando para seguir atrás do pai que já se adiantava saindo da livraria.

E quem sabe um dia quando adulta, ela repetirá as mesmas coisas que lhe foram programadas quando na infância, e derrubará livros das estantes, pois afinal, acontece nas melhores famílias, e então dirá sempre desculpas, pois o que é para ser feito, é isso: apenas desculpas, pois haverá alguém para colocar tudo de volta na estante.

*Livraria Nobel, São Luís, 16:30.

Imagem: Vibrant Dreams
Fonte:http://www.flickr.com/photos/brookeshaden


3 comentários:

Marcella disse...

Ver além do que se vê.

Sem dúvida, sua sensibilidade e sua mente são coisas que valem a pena sentir e conhecer.

Prova disso foi o comentário sobre o amor que colocou no meu post.

Até breve, eu espero.

Thaise L. Pinto disse...

Acontece nas melhores familias aprender a falar sem dizer... muitas vezes a boa educação não passa da palavras sem sentimentos, o problema real só começa quando esses sentimentos não são, apenas, "desculpas".

Lívia Inácio disse...

nossa...

que reflexão!