30 Maio 2009

Ancestral




Eu não sou assim. Não sou um corpo,
Adorno de carne, ossos e sangue,
Que se inventa na roupa que veste.
Não. Não sou os livros que já li,
A educação de estranhos professores,
Ou mesmo aquilo criado pelos pais.

Não sou o que desejam os outros,
E seus dedos que muito apontam.
Não sou o que digo de mim e nem
A imagem que mostra o espelho.

E se não sou, é por recusar o agora.
Pois sou de antes, do tempo passado.
O que quero dizer é que não sou o hoje:
Esta suposta modernidade que esclarece
E no entanto, corta as próprias raízes.

Sou dos que vieram ontem, do canto
Dos que corriam pelas planícies,
Pelas colinas, na época onde tudo
Era sagrado. E a história se contava
Pelas cantigas em volta da fogueira,
Pelas pinturas nas paredes de pedra
Que o mais velho um dia pintou...

Já o que é hoje... ah, tanto engana,
E distorce, e afasta, e mente, e mata.
Conta suas histórias em folhetins
De tinta preta, e pinta um mundo
Em telas onde até o cristal derreteu.

Mas quando fecho os olhos e durmo,
Meus sonhos insistem me lembrar
Das antigas canções que revelam
A real natureza de mim mesmo.
Sou portanto, Ancestral...

10 comentários:

Pluta disse...

Ancestral...aquele que antecedeu tudo, aquele que construiu para nós o mundo.

Adorei...
Lindíssimo texto.

beijos

Pluta disse...

Vejo que anda a olhar pelos meus olhos.

Hum! Queria que pudesse sabê-lo!

Thalita, disse...

É mesmo um poema muito bonito, Ramon, digno de quem sabe das coisas.

Escreva mais.

Lis disse...

As vezes tristezas ancestrais me tomam...

Muito bom aqui.

Ana Raquel disse...

Tuas palavras causam-me um "não sei comntar sobre".
Devo ter herdado isto de meus ancestrais,mudos sentimentais.

Adoro aqui.

Abraços!

Mari disse...

Adorei seu espaço, Ramon!

Luz no seu dia...

Rafael Costa disse...

Arre, nao sou nada, nunca serei nada - Pessoa.
Desolação!

Às vezes eu sinto que nao pertenço a certas coisas, espaços e momentos, mas ainda existo e me movimento.

Já nasci velho e pronto para morrer.

Abraços

Rafa

Michelly Barros disse...

engraçado ler esse poema e o último comentário que fala do Pessoa... pq eu tb me lembrei dele! comprei um livro fds q se chama justamente "qdo fui o outro". :)

adorei!

Leandro Jardim disse...

bonito isso, meu caro :)

Dani Santos disse...

... esses outros tantos que nos habitam e nos fazem... esse retorno às raízes do que se é, do que clama em nós a terra, o sangue derramado, as vozes antigas.
a natureza que nos molda antes de sermos homens...

a humanidade que nos ultrapassa.
Lembrei de uma poesia, Ramon, que escrevi há uns dois anos.
http://poemices.blogspot.com/2008/10/antiguidade.html

Abraços pra ti.