
Eu não sou assim. Não sou um corpo,
Adorno de carne, ossos e sangue,
Que se inventa na roupa que veste.
Não. Não sou os livros que já li,
A educação de estranhos professores,
Ou mesmo aquilo criado pelos pais.
Não sou o que desejam os outros,
E seus dedos que muito apontam.
Não sou o que digo de mim e nem
A imagem que mostra o espelho.
E se não sou, é por recusar o agora.
Pois sou de antes, do tempo passado.
O que quero dizer é que não sou o hoje:
Esta suposta modernidade que esclarece
E no entanto, corta as próprias raízes.
Sou dos que vieram ontem, do canto
Dos que corriam pelas planícies,
Pelas colinas, na época onde tudo
Era sagrado. E a história se contava
Pelas cantigas em volta da fogueira,
Pelas pinturas nas paredes de pedra
Que o mais velho um dia pintou...
Já o que é hoje... ah, tanto engana,
E distorce, e afasta, e mente, e mata.
Conta suas histórias em folhetins
De tinta preta, e pinta um mundo
Em telas onde até o cristal derreteu.
Mas quando fecho os olhos e durmo,
Meus sonhos insistem me lembrar
Das antigas canções que revelam
A real natureza de mim mesmo.
Sou portanto, Ancestral...
10 comentários:
Ancestral...aquele que antecedeu tudo, aquele que construiu para nós o mundo.
Adorei...
Lindíssimo texto.
beijos
Vejo que anda a olhar pelos meus olhos.
Hum! Queria que pudesse sabê-lo!
É mesmo um poema muito bonito, Ramon, digno de quem sabe das coisas.
Escreva mais.
As vezes tristezas ancestrais me tomam...
Muito bom aqui.
Tuas palavras causam-me um "não sei comntar sobre".
Devo ter herdado isto de meus ancestrais,mudos sentimentais.
Adoro aqui.
Abraços!
Adorei seu espaço, Ramon!
Luz no seu dia...
Arre, nao sou nada, nunca serei nada - Pessoa.
Desolação!
Às vezes eu sinto que nao pertenço a certas coisas, espaços e momentos, mas ainda existo e me movimento.
Já nasci velho e pronto para morrer.
Abraços
Rafa
engraçado ler esse poema e o último comentário que fala do Pessoa... pq eu tb me lembrei dele! comprei um livro fds q se chama justamente "qdo fui o outro". :)
adorei!
bonito isso, meu caro :)
... esses outros tantos que nos habitam e nos fazem... esse retorno às raízes do que se é, do que clama em nós a terra, o sangue derramado, as vozes antigas.
a natureza que nos molda antes de sermos homens...
a humanidade que nos ultrapassa.
Lembrei de uma poesia, Ramon, que escrevi há uns dois anos.
http://poemices.blogspot.com/2008/10/antiguidade.html
Abraços pra ti.
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