30 Maio 2009

Ancestral




Eu não sou assim. Não sou um corpo,
Adorno de carne, ossos e sangue,
Que se inventa na roupa que veste.
Não. Não sou os livros que já li,
A educação de estranhos professores,
Ou mesmo aquilo criado pelos pais.

Não sou o que desejam os outros,
E seus dedos que muito apontam.
Não sou o que digo de mim e nem
A imagem que mostra o espelho.

E se não sou, é por recusar o agora.
Pois sou de antes, do tempo passado.
O que quero dizer é que não sou o hoje:
Esta suposta modernidade que esclarece
E no entanto, corta as próprias raízes.

Sou dos que vieram ontem, do canto
Dos que corriam pelas planícies,
Pelas colinas, na época onde tudo
Era sagrado. E a história se contava
Pelas cantigas em volta da fogueira,
Pelas pinturas nas paredes de pedra
Que o mais velho um dia pintou...

Já o que é hoje... ah, tanto engana,
E distorce, e afasta, e mente, e mata.
Conta suas histórias em folhetins
De tinta preta, e pinta um mundo
Em telas onde até o cristal derreteu.

Mas quando fecho os olhos e durmo,
Meus sonhos insistem me lembrar
Das antigas canções que revelam
A real natureza de mim mesmo.
Sou portanto, Ancestral...

24 Maio 2009

Medusa












Através de negros espelhos, percebi
A verdade por detrás destes olhos. 
O que vi foi apenas um reflexo 
Onde eu mesmo me deixei escravizar.   

Eu olhei no fundo desses olhos 
E você Medusa, fitou-me o peito 
Fazendo naufragar um coração 
Que feito pedra, afundou comigo.   

Medusa, se um dia tornou-me Rei 
Foi para me coroar de espinhos. 
Foi para me despir um manto 
De ilusões, e conhecer a nudez 
Da juventude que se perdeu 
Na prataria enegrecida do tempo.   

Quando tudo o que me restar 
For uma gaiola e um pássaro, 
Eu aprenderei com sua canção 
O valor de se ter um escravo 
Aprisionado dentro de si mesmo.   

Quando tudo for apenas memória, 
E lembranças forem pérolas gastas, 
Eu estarei pelos trópicos da solidão 
A navegar por brisas oceânicas 
Em companhia de cabelos brancos.

 

23 Maio 2009

Vinte e Oito

Vinte e Oito é número Lunar.
Pois vinte e oito
dias
A Lua completa suas fases
Em seu ciclo de metades.
É uma face clara e uma escura,
Uma metade que se mostra
Quarto crescente, quarto minguante...

E se hora some, e se hora aparece
O mar chora, se alegra, sobe e desce,
Em sua eterna declaração
De espuma à areia da praia.
E só a água sabe da Lua...

Vinte e Oito é número Feminino.
Pois vinte e oito dias

A Mulher completa suas fases,
Num ciclo, onde a metade
É dia de conceber fertilidade.

E seu ciclo começa vermelho
E termina vermelho.
Não porque sangue é derramado,
E sim, porque sangue

É a água do seu peito
E de suas palavras.

Tudo contém água,
Pois vivo é quem sangra.
E Vida já tem nome de Mulher...

Amor Fati

O amor não nasce em solo morto.
Mas faz solo morto germinar flores.
O amor, nasce da vida e para a vida...
E liberta as almas e prende os corpos...

O amor é um assassino do ego,
E o eu acaba por ser outro...
E aí mora sua alegria.

Em algum lugar entre o lá e o aqui,
O amor escreve seus ditames,
Numa linguagem que ninguém decifra

Mas todos sentem...

Então, sinta! Pois eu calo agora...
E sinto...

15 Maio 2009

Menino

Acontece do menino ainda correr,
Mesmo com suas costas teimando
Em lembrar a condição de tantas
Cambalhotas, quedas e pulos.

Acontece de ser teimoso e ver tudo
Com olhos de primeira vez,
Equilibrando-se em um pé só
A seguir quadrados amarelos.
E com uma pedra na mão
Percorrer do céu ao inferno.

Deixem alegrar-se com suas brincadeiras.
Que a complexidade das coisas sérias
Fique com os que se orgulham adultos.

Porém, são tantos dedos que o menino
Já não consegue contar. E de apontar
E apontar, os outros endureceram,
Esquecendo-se do menino que saiu
Um dia para brincar de se esconder...
E nunca ninguém contou trinta e um,
Pois o salve todos foi esquecido...

Vendaram seus olhos, rodopiaram-no
Trinta vezes, e tonto foi obrigado a seguir
Às cegas, pelas brincadeiras dos outros
Num mundo onde tudo é pega pega,
E pessoas são postas num paredão
Para ver seus sete pecados punidos
Com a lei de um chicote queimado...

Menino, se tu me ouves, vai para esquerda
De três passos e siga reto mais um pouco.
Agora está quente... Não! Pela direita é frio.
Assim, esquerda, pouquinho mais em frente,
Bem ali é a mancha, é o céu, eu não esqueci!
Menino, corre! Você ainda consegue gritar
Trinta e um salve todos!

04 Abril 2009

Zodiacal

Quem estuda as estrelas diz que eu nasci Gêmeos,
Embora nunca tenha encontrado meu outro rosto...
E só minha sombra me foi siamesa por tantos anos.
Não importava qual decano, qual das doze casas,

Qual sol me guiava, pois havia sempre uma Lua
A me atrair por sua face Cheia e por sua face Nova.
Falavam-me disso por cada carta, por cada mapa,
Até me perder por entre tantas estrelas e astros.

Pela terra, eu me atirei em meio a muitos Leões,
Corri por manadas de Touros enquanto o sopro
Destes Áries trazia-me mais e mais para mim mesmo.
Mergulhei em Aquários e vi com que força os Peixes
Nadavam sob as correntes do filho que eu ainda era.

E não adiantou deixar meu coração em Virgem
Pois minha irmã Gêmea fazia-me trair a mim mesmo.
E cego por meu próprio signo, me desequilibrei
Pelos pesos das Libras enquanto bebia o veneno
De escorpiões. Eu fui eu, fui outro e fui muitos,
Profanando o sentido de todas estas casas...

Então, depois de quase trinta voltas em torno
Do próprio eu, as linhas deste mapa destinaram
Um Sagitário. E sua flecha foi-me disparada
Onde mais eu sentia: No peito, no espírito, na Alma.

O soma que foi de mim Queimou em seu fogo.
E vi-me pouco a pouco ganhando mais pernas:
Duas, três, quatro... Agora sou signo da água.
Estou em Câncer, regido por ti, Sagitária...

11 Fevereiro 2009

Silente

É preciso silêncio para o eco!
É preciso aquela pausa mínima 
Entre encher e secar o peito, 
E deixar reverberar o aroma 
De tudo aquilo não dito...    

O aroma de coisas esquecidas, 
E lembradas feito velha música: 
Perfume marcado, beijo roubado, 
A cadência da lágrima 
E a fermata do sorriso.                                           

É preciso a pausa para a nota: 
O intervalo do arpejo, 
O momento antes do começo 
E também o que antecede o fim.   

É preciso o silêncio, esta pausa 
Este meio, este hífen, este hiato, 
Para o que ficou parado em mim   
Possa descer e depois subir. 

Assim, entre uma batida e outra 
Quando o coração fica calado 
Para depois bater enfim...