
Eu não sou assim. Não sou um corpo,
Adorno de carne, ossos e sangue,
Que se inventa na roupa que veste.
Não. Não sou os livros que já li,
A educação de estranhos professores,
Ou mesmo aquilo criado pelos pais.
Não sou o que desejam os outros,
E seus dedos que muito apontam.
Não sou o que digo de mim e nem
A imagem que mostra o espelho.
E se não sou, é por recusar o agora.
Pois sou de antes, do tempo passado.
O que quero dizer é que não sou o hoje:
Esta suposta modernidade que esclarece
E no entanto, corta as próprias raízes.
Sou dos que vieram ontem, do canto
Dos que corriam pelas planícies,
Pelas colinas, na época onde tudo
Era sagrado. E a história se contava
Pelas cantigas em volta da fogueira,
Pelas pinturas nas paredes de pedra
Que o mais velho um dia pintou...
Já o que é hoje... ah, tanto engana,
E distorce, e afasta, e mente, e mata.
Conta suas histórias em folhetins
De tinta preta, e pinta um mundo
Em telas onde até o cristal derreteu.
Mas quando fecho os olhos e durmo,
Meus sonhos insistem me lembrar
Das antigas canções que revelam
A real natureza de mim mesmo.
Sou portanto, Ancestral...
